quarta-feira, 11 de junho de 2008
Intervalo para uma Crise - Literatura de Entranhamento
domingo, 1 de junho de 2008
Bienal de Artes

No dia anterior, também aconteceu bem um café literário, com debate de quatro autores baianos, Sandro Ornellas, Carlos Ribeiros, Franklin Maxado e Lima Trindade, sobre o tema Literatura Baiana Contemporânea: Regionalismo vs. Cosmopolitismo Até inspirou Sandro na palestra ministrada por ele nessa semana na Argentina e lhe havia rendido um post em seu blog: "DÚVIDA DA MESA DE ONTEM - Escritor baiano contemporâneo: artista ou autista?". Sandro tratou desse isolamento proposital do escritor baiano, que acaba por torná-lo regional; Carlos, do panorama dos autores baianos pelo século XX e a distinção da Velha Bahia e a Nova, o que é e não é mais possível com a urbanização; Franklin, da discriminação que sofre a literatura de cordel e o enaltecimento da manutenção dos vínculos nordestinos; Lima, da junção entre esses dois termos, regionalismo vs. cosmopolitismo, que de jeito nenhum devem se confrontar e sim entrarem na simbiose da universalidade.
é possível? é.
Uma sobre a Literatura na Bahia
"Eu, Sandro Ornellas e Katherine Funke faremos um "Recital de Poesia Baiana"Mayo de Las Letras, na cidade de San Miguel de Tucumán, noroeste da Argentina, na sexta-feira, 30 de maio de 2008, às 20h30, na Sala Caviglia (Rua San Martín, 251). Lerei trechos de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" (de 2004) e de poemas de Gregório de Mattos e fragmentos de contos dos bróders Gustavo Rios, Patrick Brock e Paulo Bullar. Sandro lerá poemas da própria lavra e versos de Waly Salomão e Lupeu Lacerda. Na trilha sonora do recital, Katherine vai tocar violão elétrico e também cantar um pouco. Na véspera, no mesmo local, às 20h, Sandro Ornellas, que além de poeta é professor de letras da UFBA, apresentará a palestra “Literatura baiana: Entre 'regionalismo' e 'cosmopolitismo' ”, tratando do cenário atual das letras em nosso estado. Quem nos leva é a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, com apoio do Ente Cultural de Tucumán. Hasta la vista!"
Não sou de profecias. Sócrates, ao ser julgado e condenado a beber cicuta, pede, então, licença para dizer algo sobre o destino de Atenas. Justifica - "Pessoas perto da morte se sentem mais à vontade em vaticinar". Por isso eu não, não me sinto tão perto dela pra ter o gosto e ficar bem em arriscar palpites para o futuro. Mas me dou hoje a permissão de soltar algo sobre o que vem aí, mesmo que isso me seja funesto: o cenário literário da Bahia terá vôos. Se não erguer seus autores, vai ao menos erguer as vontades. A Literatura na Bahia vai se naturalizar.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Interviremos
domingo, 25 de maio de 2008
O Coentro
O Coentro não começou apenas com essa vontade. Sempre nos cercou a motivação da produção literária, e toda reunião nos perguntávamos o que seríamos nisso exatamente. Recital e debates foram as meninas dos olhos, que ainda persistem e continuarão como nossos motins. Tanto que ocorreram, semanas atrás, na Bienal de Artes da Ufba. Recebemos o convite bem em cima, por alguém do DCE que sabia do conluio e das nossas vontades. Aceitamos, aprontamos o negoço em três semanas e aconteceu bem, de um modo que ninguém acha que aconteceria quando se trata de literatura em Salvador. Mas isso eu reavejo no próximo post, que isso merece um sozinho.
Temos a vontade de nos espalhar, de declamar até em velório e batismo de criança, como diria Marcelino Freire. E também de treinar pesado a estilística, a narrativa, a estrutura, a estética, nossas considerações sobre o que é que fazemos, porque escrever não está nesse estado empírico que pregam, um pegar de caneta isolado e ir. Escrever é instrumento. Pode ser um aprendizado mais solitário e subjetivo que outros, mas também deve exigir tremendo tempo e tremendo esforço. Nisso seguiremos pelo estudo da teoria literária, de autores, de correntes e uns etcs. Não acho academicismo, não acho uma podação da feitura, acho sim que é preferir andar num quarto, que está sem lâmpadas, às três da tarde, sol a pino, e não às três da madrugada, noite fechada. A tendência paulistéia urbana, de uma fatia da nova geração literária, em desconsiderar a labuta total do escrever, "por deixar tudo sério e blasé demais", é, no mínimo, encucador.
O Coentro já participa do evento "Cinema de uma Corda Só", no dia 26/05, para declamar uns pingos. Vão ter três bandas, exibição de curtas, exposições e tais. No pátio do Icba. 5 pilas. E fora isso, outros bons elos que falarei no decorrer do mundo, da vida, da varanda, do blog.
* - É o cumprimento de uma idéia posta aqui. Está em "Dica de Verão: Uma Oficinazinha Literária"
Pela ausência
E tudo isso porque li ontem o texto "Literatura no Colégio - Incentivo ou Sabotagem?". Entendi novamente velhas vontades e percebi que eu não estava fora do Movimento aSSAlto. Quero sim a militância, a política. Ainda quis nesses dois meses que me passaram, mas apenas a militância literária. Ainda é, inclusive, essa militância que eu quero, mas agora entendi que posso querê-la apenas e continuar aqui. Meu temor era o aSSAlto ter começado como uma intervenção urbana mais genérica, uma mobilizadora anárquica, e ficar apenas com uma causa no fim das contas. Mas não, preciso me desapegar. Acontece de vontades e movimentos migrarem para um espaço distinto do original e se fincarem. Achei meu espaço e aqui que eu quero ficar. Eu sei que não é um erro, não é um desvio, um dos meus esquecimentos, porque pesquisei em mim e entendi, mas a minha reta. E sigo.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Devaneios de Estímulo à Leitura
quarta-feira, 12 de março de 2008
4 Beats + EntreAspas
terça-feira, 11 de março de 2008
Campanha Livro Livre Salvador
O Instituto de Ciência da Informação da UFBA (ICI) vai deflagrar a partir do próximo dia 12 a campanha Livro Livre Salvador, que consiste na liberação de livros em espaços públicos. É um movimento mundial em franco desenvolvimento nos Estados Unidos, Europa e América Latina com iniciativas ainda incipientes no Brasil. Tem por estratégia incluir a presença de livros na paisagem urbana de Salvador, de forma a contribuir para o hábito de leitura na população. Sugere-se a colocação de livros em bancos de praças, nos terminais de ônibus, na estação de trem, em balcões de supermercados ou padarias, em restaurantes ou bares etc. Para tanto, o ICI está recebendo as mais variadas obras em doação. Exceto livros didáticos, podem ser doados romances, crônicas, poesias, contos, biografias, viagens, culinária e gastronomia, livros de auto-ajuda, livros técnicos e científicos, religião, e filosofia.
As doações devem ser encaminhadas para a sede do ICI, localizada no Vale do Canela, e entidades parceiras. O ponto de saída do Livro Livre Salvador será na Praça do Campo Grande, com a presença de autoridades e instituições parceiras no dia 12 de março, a partir das 9 horas, com programação de abertura. À tarde, a circulação dos livros continuará nas áreas geográficas onde se situam os parceiros. Essa ação se estenderá por todo o ano nos locais do centro urbano e bairros periféricos. "
A idéia não é criar bibliotecas nas comunidades, mas transformar a cidade inteira em uma biblioteca livre, onde qualquer pessoa poderá se integrar e participar deste ato", explica a Profa. Vanda Cunha, docente da UFBA, presidente da Fundação João Fernandes da Cunha e uma das responsáveis pela coordenação do projeto em Salvador. Ela informa que o projeto pretende compartilhar com outras pessoas esta experiência aumentando o número de leitores. “Queremos que cada vez mais a população se perca e se ache na leitura?”, conclui.
As entidades parceiras do projeto do ICI são as seguintes: Fundação João Fernandes da Cunha; Editora da UFBA; Editora da UNEB; Biblioteca Central Reitor Macedo Costa; Universidade Corporativa Petrobras; Sistema de Bibliotecas da UFBA; Câmara Municipal de Salvador; Fundação Pedro Calmon; Sistema de Bibliotecas Públicas do Estado da Bahia; Fundação Gregório de Mattos; Gerência de Arquivos e Bibliotecas; Sistema de Bibliotecas da UNEB; Academia Baiana de Educação; Academia de Letras e Artes do Salvador; Academia de Cultura da Bahia; Associação Social e Cultural 22 de Dezembro; Avante Educação e Mobilização Social; Círculo de Estudo Pensamento e Ação; Grupo de Ação Cultural da Bahia; Câmara Baiana do Livro; Editora Xaxado; Cian Gráfica e Editora; e Bureau Gráfica.
terça-feira, 4 de março de 2008
Então... Literatura Baiana
Há casos de escritores novos que surgem até dentro de um cemitério, por que não aconteceria na Bahia? Óbvio que existem, muitos sabem seus nomes, lêem seus blogs, repassam o link quando a coisa vem e explode ou deixam de comentar quando a poesiazinha não funcionou. Não é onde Breno bate, não se trata de pirraça gratuita. O que acredito que ele sinta, e que em mim chega chacoalhando as têmporas, passa pela ausência de impressão literária na cidade. Classe média minúscula, falta de incentivo à leitura, problemas no repasse de verbas para a educação (e na gestão de João Henrique aconteceu com peso. Escolas de bom porte, como o Angelino Varela na Garibaldi, acabando), mas também a pouca interferência dos escritores. Fazemos pouco. Para uma Salvador que precisa do triplo de força dos autores em relação a uma Porto Alegre, fazemos muito pouco. E não estou pensando no dever de existir um front para peitar qualquer outro estado e não deixar que nove dos dez finalistas de romance na Jabuti não sejam sulistas ou mineiros, não, isso é ainda mais pra frente. Prego para agora pelo menos um quadro sustentável, que os soterapolitanos sintam ao redor do corpo, nos músculos, dentro do tênis, entre os dentes, uma sensação de vontade de potência acontecendo por aí e latejando pela Literatura. A sensação é o mínimo, nem que seja como uma dessas lembranças que nos chegam à cabeça e não conseguimos completar. O ar precisa ser mais carregado de um fluxo de ocorrência. Vejam o exemplo do cenário do rock aqui. Trata-se de uma capital arreganhada para o turismo e para a festividade axé music, com parcos espaços para show, com bandas tendo que tocar dez vezes de graça antes do primeiro cachê de couvert, e mesmo assim se segura, desperta um efeito de existência. Posso não saber um terço dos nomes das bandas de rock locais, ir a apenas uma apresentação a cada dois meses, mas sei que acontece, sinto que corresponde de algum modo à minha vivência.
O Santo-Conto Transposto
Ela estava debruçada na varanda, com a mão aberta sob o queixo, observando o choque entre os edifícios e o céu numa serenidade de domingo. Linda - cabelos com mechas violetas, boca pintada de saliva, pulseira de gotas que cintilam e uma camisola do Mickey Mouse até os joelhos. Linda - mesmo quando me avistou num susto, abafou o grito e cedeu um passo para trás.
Conheci o amor da minha vida enquanto saltava do vigésimo andar.
Ilustração de Jana Dourado
78 palavras
444 caracteres
Arredondo para mais um pouco o limite de 1/8 de ofício: 550 caracteres. É como se você imprimisse um texto no tamanho exato da palma de sua mão.
Duas Idéias de Ataque em Síntese
Atividade: Pôr o santinho em lugares que uma pessoa apanha, sem o ranço de displicência de quem apanha um panfleto da Ótica Verde Perto. São alvos os carros estacionados, as mochilas de desavisados, contas de restaurante, amigos de amigos, conhecidos, recém-conhecidos em busu, aquele cara da velhíssima turma que você não sabe como cumprimentar e “toma aí um santinho”, com um sorriso de tchau, etc. Sempre ter na própria mochila um bom punhado.
Custo: Cada folha terá 8 santinhos. Cada folha será xerocada frente e verso, o que dá duas xerox. É, pra falar de matemática, só no tom de minha professora da quarta série. Sim, sim, para 8 santinhos, R$0,20, no máximo. R$1 produz 5 cópias, o mesmo que 40 santinhos. Ou numa negociação com uma gráfica de verdade (indico a All Collor do Stiep), dá pra fazer logo 3.000 exemplares chamando 50 pilas do bolso.
* * *
CONTOS DOMÉSTICOS (em grupo) - Uma folha de ofício dobrada ao meio, horizontalmente, de modo que quatro partes fiquem divididas. Um para cada autor. Meio ofício para contar a mentira que quiser.
Basta ter permissão pra entrar num prédio, através de um amigo, de um crachá falso do Combate à Dengue, de um muro baixo, e lançar texto pela fresta da porta de cada apartamento. Agora ninguém vai reclamar que escritor é sedentário, descendo assim tantos lances de escada.
Ano passado eu fiz um ataque desses num prédio de 21 andares, com o grupo Novapólicos. Ali era terrorismo poético, apontamentos existencialistas, “a felicidade está numa rota unilateral”, “nós não podemos inventar nada, apenas optar por alternativas prontas”, e a coisa foi. Colocava, tocava a campainha (desnecessário. Pura presepada) e corria. No dia seguinte, o amigo-morador viu uma mini-reunião de condomínio perto do elevador de serviço. “Ei, menino, você também recebeu aquele papel?”. “Sei de nada não”.
O mesmo tipo de exemplar pode servir para CORREIO-BOMBA, que é mandar num envelope convencional para algum endereço avulso, e LITERATURA DE RECEPÇÃO, que é colocar em pilhas de revistas de consultórios médicos.
Custo: Em Salvador, a média de andares por prédio é 12. A média de apartamentos por andar é 2. 24 portas a serem atendidas, então. R$0,20 cada exemplar. R$4,80 por prédio. R$1,20 para cada autor.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Literatura no Colégio: Incentivo ou Sabotagem?
Engraçado. Cinema não é ensinado em escolas, música só o básico do básico nos primeiros anos de formação, e nada próximo do rock’n’roll ou da musiqueta de rádio FM que é o tangível, que é o que a empregada põe pra tocar durante a faxina e nós paramos para ouvir porque a tarefa de casa não prende. Literatura sim. Está nos belo currículo de formação, tão certo quanto o professor de Física com tiques piadísticos, o conselho de classe para expulsar dois ou quatro ao fim da unidade, o supervisor com as chaves dos portões no dedo mindinho. Portanto, a Literatura passa por todos, é ouvida por todos e não cobra dez reais a meia. No ensino particular ou público, ela é trazida com sua amplitude técnica, sócio-política, histórico-cultural e não largada para o empirismo de quem quiser pegar um livro na biblioteca do pai, como quem apanha um disco do Pink Floyd na prateleira do tio, e simplesmente ler. Toma presença em cada turma de quarenta alunos, das seis de cada instituição, duas ou três vezes semana. Todavia, trata-se do segmento artístico menos popular dos três.
Claro: o colégio, nessa conjuntura de cachorrinho de balaio da vestibulice, do futuro-cristão-bem-feito, é um rei Midas às avessas, envenena tudo o que toca. Não sabe de verdade puxar quem lhes é servido e vence pelo argumento da obrigação, responde “porque cai na prova, meu filho” quando indagado “pra quê”. E o sujeito vai mal-acordado e empurrado pela família, só se alegra mesmo em acertar uma bolinha de papel na orelha de alguém e ver Ana Cláudia Gostosa com um shortinho de educação física, repudiando no íntimo o que ali em cima do tablado for dito. Aprende por duas semanas o cronograma, prometendo-se enviar aquilo para a Sra.Puta que Pariu, número 37, apt.401, depois da prova.
O afinco pelas letras sofre sabotagem a cada passagem do calendário. Agora mesmo, eu sei, eu ouço em sussurros vindos do vento. Os professores na mania do cânone mostram a Literatura como um painel formado por um cemitério de autores, na qual a última atualização aconteceu talvez na geração de 45. O best-seller da semana passada não é discutível, o livro predileto que fala de carro-fantasma matando gente é lixo, os quadrinhos ninguém nem cita ou intercala. Se o negoço é Gregório de Matos, a declamação segue apenas pelo Ditoso aquele, e bem aventurado,/que longe, e aparato das demandas/não vê nos tribunais as apelandas/que à vida dão fastio, e dão enfado e nunca pelo “De dois ff se compõe/esta cidade a meu ver/um furtar, outro foder”. Se é Jorge Amado, apenas o apelo da região cacaueira ou a fase comunista e nunca um leve up com os contos publicados na Playboy. Parca insistência na mágica que é uma estória contada, ali no papel, pronta pra quem tiver um par de olhos com vontade. A voz do professor não está excitada, os pêlos dos braços e da nuca não estão eriçados, o coração vil não segue a mil, como deveria acontecer com toda alguém que pragueja um texto literário.
Pintados por tanto tempo com tom blasé, os escritores não despertam mais deslumbramento. Não são vistos como subversivos, parceiros da rebeldia juvenil, do atentado contra o velho, mas aliados da ordem vigente. Parecem todos do tipo que iriam à reunião de pais e mestres a cada unidade, tomar chá de saquinho e discutir a grade curricular, se fossem convidados. Eles estão do lado de lá. Logo, lê-los não pareceria muito adequado, seria coligar-se com toda a chatice, seria provavelmente não encontrar nada que aos 16 ou 17 fornecesse uma identificação, nada que desvende essas dúvidas todas que cabem bem dentro de nós. Os escritores formam aquele quadro vazio no quadro-negro vazio.
Rechaçando esse contato na adolescência, poucos vão resgatá-lo depois. Poucos mesmo, pois a imagem nebulosa fica grudada e, com faculdade no sufoco, trabalho de um turno, cansaço à noite ou filho, esposa, mãe de Alzheimer, é difícil sentir falta de Literatura, um troço que nunca lhe foi próximo, e começar um hábito de leitor. Necessário um pretexto gigantesco para desenterrar esse trauma e despi-lo do esperma mental formalista, combinar com a folga do domingo e tchum. Aí quem conseguiu vai todo feliz espalhar que não era exatamente daquele jeito, que a coisa das letras era boa de verdade, para receber dos outros um sorrisinho que durará seis segundos, seguido de um: “Mas sim... Do que a gente estava falando mesmo? Hum. Ah!”.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Procura-se

by ( ( Marcelo ) )
http://www.orkut.com/Album.aspx?uid=11216541588698766934&aid=1201190711 - imprima e cole cinco de vez num muro, numa pilastra, no duro, nas costas da madrasta.
* * *
Ai de ti, Cidade, abre-se o quarto selo e o quarto animal diz: "Vem e vê". E olho, e eis que um cavalo amarelo aparece no céu, bem em cima da península de Itapagipe e quem está sentado sobre ele tem por nome Morte; e o inferno o segue; e lhe é dado o poder de matar com a espada e com a fome e com a peste e com as feras da terra.
Ai de ti, Cidade, o sexto selo se abre, um grande tremor de terra abala teus edifícios, desaba o Elevador Lacerda; e a Lua se torna como sangue e caem em tua direção as estrelas do céu, como a figueira lança de si seus figos verdes, sacudida por um vento forte.
Ai de ti, Cidade, o céu se retira como um pergaminho se enrola; e na linha do horizonte as ilhas de Itaparica, dos Frades e da Maré são removidas dos seus lugares. E o primeiro anjo toca sua trombeta e uma saraiva de fogo misturado com sangue cai sobre o Forte São Marcelo e as embarcações ancoradas no porto são inundadas. E o segundo anjo toca sua trombeta e é lançada ao mar uma coisa como um grande monte ardendo e torna-se em sangue a terça parte do mar.
Ai de ti, Cidade, o quinto anjo toca sua trombeta e na Rampa do mercado abre-se o poço do fundo do abismo e o fumo que dele sobe é como o de uma grande fornalha e com o fumo do poço vêm gafanhotos sobre a cidade e lhes é dado o poder, como o poder que têm os escorpiões da terra.
Ai de ti, Cidade, vejo um sinal no céu - uma mulher vestida de Sol, tendo a Lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas sobre sua cabeça. Está grávida e com as dores do parto e grita com ânsias de dar à luz. E vejo outro sinal no céu e eis que é um grande dragão vermelho, que tem sete cabeças e dez chifres e sobre suas cabeças sete diademas; e o dragão pára diante da mulher que há de dar à luz para que, dando à luz, lhe trague o filho.
Ai de ti, Cidade, vejo uma batalha no céu, os anjos batalham contra o Dragão. E é precipitado sobre a cidade o Grande Dragão, a antiga serpente chamada de Diabo, o satanás que engana todo mundo; ele é precipitado sobre a cidade e seus anjos caem com ele.
Trecho do livro Atire em Sofia , de Sonia Coutinho
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Dica de Verão: Uma Oficinazinha Literária
Pois bem, recomendo a reunião de um grupo desses autores num mesmo espaço. É convidar por e-mail, mesmo que metade você só conheça por comentário de blog ou lidas passageiras aí no mundo, dizer o endereço e ir. Junte todos numa varanda ou numa sala. Diga que será a primeira de muitas e ponha uns no sofá, outros em cadeiras, chão, mesa, em pé. Cada qual com um texto de autoria própria no bolso e um livro de influência forte na bolsa. E começa. Leituras, colóquios e rabugentices saudáveis.
O bom é que cada escritor se torne o advogado de sua prosa e todos os outros, promotores. Quando um ler, o restante deve discutir à exaustão, miúdo por miúdo, pressionar, reconhecer o que for de reconhecível e não usar de eufemismos para insultar o imprestável. A gritaria que se levanta em seguida cresce qualquer humano. Depois, alguém faz uma exposição sobre algum autor e deixa que os outros na conversa, de repente, comecem a falar do destino da literatura e das características da nova geração, daqui a pouco com links em todas as abstratices, inclusive no lesbianismo da vizinha e no preço do feijão.
A gradação das reuniões é um bom charme. Sobrepujar o vínculo de leitores-em-conjunto para estimuladores. Alguns círculos de leitura após, e, portanto, cada um conhecendo minimamente o estilo de cada um, interessante iniciar uns exercícios. Como tentar escrever o conto do outro com o seu jeito ou fazer aquele cara depressivo do fluxo de consciência soltar uma crônica bem Veríssimo. E aí voa: sortear temas & gêneros para se escrever um conto e se trazer na próxima reunião, colocar a mocinha tímida para escrever um poema no meio da roda sob cantoria ou torcidas negativistas. Sim. O militarismo do "você vai se ultrapassar, imbecil". Manejar sarais abertos ao público, organizar um blog de escritos do grupo, sonhar coletâneas impressas, selo, editora, e o movimento que enfim revolucionará a arte.
Não existe desfecho visível, o ponto em que ganharão o canudo, ou mesmo um objetivo. O grupo não precisa levar nada dele além de um aprendizado. Sentir que amadurece a pena e se esbalda de áurea literata duas vezes por mês já é não cair numa apatia de criação ou se ver sozinho no ofício. E se for para acontecer algo extra, que aconteça, mas sem cobranças, apenas andanças.
Organização-Sugestão
1 - Reuniões quinzenais, no mesmo horário e no mesmo espaço. Sábado à tarde é um bocado democrático.
2 - A cada reunião, dois lêem textos e dois palestram sobre um autor, para que não se deixe nada apertado.
3 - Bom que os textos a serem lidos na reunião posterior sejam vinculados a todos previamente, por e-mail. Uns cinco dias antes, pelo menos.
4 - Os leitores-de-texto e palestrantes da reunião posterior são voluntários feitos na reunião anterior. Ninguém é obrigado a nada.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Quatro Patas
“Se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias” – Hermann Hesse
Lucas Hungria Trindade Santos, mas havia um amor duas casas ao lado para chamá-lo de Luquinhas que eu sei, não me engana. 16 anos, na 6ª série, sim, e daí?, com uma insistência se formaria ainda no girassol das idades. Insistência e permissão. A primeira já é impossível dizer, fica no infinito do se, a segunda dia 11 negaram com três disparos no peito. Ele, ajoelhado, pedindo o que fosse. O PM, pistola apontada, não querendo perder a viagem do braço.
O erro de Lucas foi correr. Quando avistou uma perseguição policial a um sujeito na Ladeira de São Caetano, soltou as pernas. Que é isso, Luquinhas. Nunca ouviu a história da estátua de sal? Você virou sal. Atingido na mão e em seguida cercado.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
#6 . Santo-conto
Lucaia - Interligar o Rio Vermelho com um quase-Iguatemi é mais útil que luz de lâmpada. Eita atalho. Merece sim seu ataque concentrado.
Morro do Gato - um bairrito engana-trouxa. Pensa que é só uma ladeira subindo e uma ladeira descendo, não tem movimento, não tem carro, nem teto, nem parede, só um poema de Vinicius. Não, atravessá-lo de nabo a lábio exige um bom bolo de papéis.
Brotas - Lá pela Cruz da Redenção, na companhia do grande Pedro Pina, aquele que embalou e queixou Mariana Ximenez. "Não, nada de compromisso, tô de férias", disse ela, graciosa.
Estacionamento da Speed Lanches (Ondina) - Chamo que chamo Alexandre, o número de carros transcende. Alternativa para escapar do momento de pagar a conta.
Calabar/Centenário/Graça/Corredor da Vitória - Certamente a maior peregrinação do movimento até agora. Sol de duas da tarde, horário marcado pra chegar no Museu e caminhada, caminhada. Mas na prosa com o repeteco Alexandre Senna, foi vupt. Saravá, rapaz.
Rio Vermelho - Noite. Arredores da Dinha. Todas as ruelas levaram a um bom lugar.
Stiep - Clarice quem cuidou de tudo. E confio. Quem não receberia com agrado até diagnóstico de câncer dessas lindas mãozinhas?
Itapuã - Davi, você fez, Davi? Davi, Davi.
Sabino Silva - Um ponte sem fundo. Passe às 18:30 e veja. Precisei de duas viagens, uma noite, outra também, para completar todos os espaços de carros.
Chame-Chame - Nada demais. Só para avolumar a lista.
Campo Grande/Canela/Garcia - Show de Lenine, lado de fora. Disputa com vários outros entregadores de papéis, que tiveram a mesma originalíssima idéia.
E o grand finale na reunião dos participantes do aSSAlto, decidindo diretrizes confidenciais (uh) para nossas idas de vidas, lá pela Dinha. Deixei o meu último bolo em cima da mesa. Alguém viu algo peculiar em várias coroas brindarem ao lado com xícaras de porcelana e disse: "Vou entregar pra elas". "Te acompanho", garantiu outro. "Ei", sugeriu um terceiro, "se é pras elas, que seja pra todo mundo". E nessa noite vi até aviãozinho de papel feito com o santo-conto. Bom criar uma literatura assim para voar.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Cachorro que Ladra
Ouvi, mas perguntei um o quê. O meu amigo, nas margens de um baba de domingo, analisando o santo-conto que eu lhe depositara na palma com a surpresa de primeira viagem, como se eu nem tivesse mostrado nada do projeto pra ele antes de xerocar e fazer o causo, repetiu: "Pensei que você não fosse fazer". Não questionei, sabia o que ele queria traduzir com isso. E um lance semi-gol nos desviou o rumo do diálogo.Breno Fernandes, que a Espanha o guarde, me dizia que nossa geração é daquela gente que senta no bar, esbraveja, tece mil projetos e no fim nada de cabo nem rabo. Euforia de instante, empolgação sentada em cadeira, que dói que nem gastrite ao ficar em pé. E senti ser não só teoria dele, de tomagem de cerveja na varanda, e sim tese se generalizando, ao ler "Até o Dia em que o Cão Morreu", do Daniel Galera, escritor da novíssima safra nacional. O protagonista acabou de se formar, mora sozinho mesmo que ainda bancado pelos pais, e não sabe qual o próximo passo cometer. Por que é isso: nós todos nascidos em 80 e 90, era de novas transfusões empregatícias, temos um condicionamento de vida fácil de se delinear e obrigatório de se obedecer, escola-colegial-vestibular-faculdade, mas nos perdemos fácil aos vinte e cinco anos, quando a coisa deixa o caráter previsível. As escolhas se multiplicam, quando nem aprendemos a escolher de verdade. E são os sintomas desse piripaque que se dá ao sujeito do livro de Galera. Afirma que vai procurar emprego, que vai pegar o número da menina com quem ele saiu dois dias atrás, que vai dar um nome ao cachorro encontrado na rua, que vai descobrir o motivo de umas dores no abdômen, mas fica o dia inteiro trancado, bebendo cerveja e escutando discos. E o porteiro do prédio comenta com ele: "Esse seu pessoal de hoje anda meio perdido, né?".
A letargia é anterior a esse momento de múltiplas escolhas. Muitas vezes apenas está, apenas acontece, sem distinguir uma exata fase. Não precisa de dúvidas também. Rodeia e nos embala, se não repelirmos, e com força. A culpa talvez seja da televisão, da propaganda subliminar, da desestruturação nacionalista, do excesso de informações tapeando a força do conteúdo, talvez. Sabe-se só que sim, o algo rebelar em nós foi sucateado, propositadamente adoecido. Uma droga do apenas falar fazer.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
#5 . Santo-conto
Eu e Álvaro Andrade (htt
JAGUARIBE/FEIRA HYPE
Rente à calçada da orla, a maior seqüência de carros em linha reta que eu já vi. Era pra além do horizonte. Tive que apalpar várias vezes o bolso com o bolo de santo-contos perguntando "será que você agüenta? será?". E não agüentou mal a metade. Sábado matutino de praia exorbita qualquer expectativa numeral. Bom, pelo menos eu tinha dois reais para um copaço de caldo de cana, pingado em umbu e limão, genialíssimo, pena que essas histórias de barbeiro afastaram o velho público, e um povo esperando lá na areia, prontos pra me arrastarem ao mar. A maré estava baixa. Ufa.
À noite, vendo um showzito de rock cover na Feira Hype e conversando com umas gentes (abraço pra Luisão Pereira, autor dessa preciosidade cá http://www.myspace.com/doisemum e outro pra Clarice Bueno, a menina dos dedos táteis em www.degrandesalturas.blogspot.com, pra Renata Alves de www.outravitrine.blogspot.com e tantos tantos), avistei o mini-estacionamento virado para a Av.Contorno. Fui, sob companhia do primo de piloto Alexandre Senna, que tomaria gosto e me acompanharia na grande jornada Calabar-Corredor da Vitória dias depois.


