quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

#1 . Santo-Conto

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
CIDADE BAIXA



1/8 de papel ofício, ilustração na frente, micro-conto no verso. Slogan feito em paint do movimento, anúncio da gráfica apoiadora como lembrança de que o capitalismo mexe mais com quem não tem como se patrocinar, créditos dos rabiscos, todas bem pequenas, espalhados pelos cantos inferiores. Quem desenhou se chama Jana Dourado, uma menina que jogaram aqui em casa e criaram. Pior que ela pensa o mesmo de mim. Mas não acreditem nela, é futura advogada. E quanto à ficção-pílula chamo lá eu, que também sou Dourado, pra confirmar a relação nepótica da geringonça. Santo-conto, oh, yeah, aquilo que se reproduz como coelho. Numa única folha, ou seja, duas xerox, 8 exemplares. Maravilindo.

A intenção permeia a distribuição maciça, claro. Pára-brisa de carro é a menina dos olhos, mas quem tiver com cara de "eu te leria", e aos poucos vou me obrigando ao convencimento de que isso se atribui a qualquer um que cruze pelos flancos (já diria Carlos Casagrande), também leva. Mochila cheia pra todo causo.


Nesse 2 de Janeiro, o plano era Av.Sete, Nazaré, Lapa, onde eu aproveitaria pra abastecer o Salvador Card. Pois é, planejo duas muriçocas num tapa só, rapaz, mais econômico. Mas minha mãe ou mainha ou professorinha Ileuza Matias me desviou na hora do almoço. "Vá comigo na Secretaria de Educação, no CAB. Lá tem um estacionamento enorme". Pensei. "E ainda depois eu vou na Cidade Baixa". Hum. "Lembre-se: aí você não vai precisar gastar nada com ônibus". Boa.

Ela e eu no gol vermelho, botando Arnaldo Antunes, resmungando que João Henrique obrigou a sua agora ex-escola a fechar de tanto desleixo, falta de papel pras provas, merenda, verba, e que ela precisa ver com a Secretaria onde vai trabalhar em 2008 no Estado. Desci no tal e realmente: uma tremenda cara de Estado, o clima modorrento de burocracia, mas um conjunto de carros apetitosos.
“Você vai demorar?”, perguntei, ajeitando a camisa com um nanocanto de Cintia Moscovich e o aSSAlto pintado a caneta de tecido. “Mas você não vai distribuir...?”. “Então. Quero que você demore”.
Por menos condenável que seja colocar um papel do tamanho duma palma de mão num carro, soa constrangedor. Senti a pontada no primeiro limpador que levantei um naco e finquei o santo, todo mundo ali perto, uns pedindo troco aos chegantes, uns vendendo lanche, uns seguranças de camisa amarela. Como se a repreensão pudesse vir e fosse uma repreensão justa. Mas talvez seja só um ranço que todo brasileiro guarda, estender as mãos em qualquer ação fora do comum alarma o interno e pede recuo, um atentado contra a obediência estruturada. Quem desfez esse nosso nervo para a rebeldia eu não acuso. Continuei.
Fui seguindo a fila, sol nos olhos, sem saber que cara fazer. Às vezes sorria sarcástico, às vezes assobiava, olhava para os lados, cumprimentava com a cabeça alguém. E esfreguei mais velocidade na coisa, retirava o santo do bolso como se fosse mágica, girava nos dedos e colocava em seu lugar, esperando quem sabe o carro explodir. E a trilha me conduziu a um estacionamento mais sombreado, com corrente de segregação, carros pomposos, seguranças que não cochilavam.
Depois de uns cinco carros atacados, notei algo em comum entre eles: o adesivo de Secretaria de Educação no vidro frontal. Fiquei malicioso. Toma aí, politicada descarada, quem é que distribui o santinho agora? E até perdi a noção de cautela, imaginando como eles conseguiam tantos Blazers.
Alguém me chamou. Um parrudo moreno acompanhado de um magrelo branquelo. Ambos seguranças. “Sim?”. “Não pode não”. “Mas não é propaganda, é movimento cultural”. “Ordens superiores”. “Papel é inofensivo”. Calma, eu estava sendo sofista. “Não é a gente que diz, é o povo lá de cima”. “Qual a justificativa?”. O parrudo não responde. Vai o magrelo, esperando só a oportunidade de definir: “Porque sim”. “...”. “Bom, na verdade é o que pessoal se chateia com tanto papel. Mandou proibir.” Porra, são com essas medidas que eles se ocupam. “O que é isso aí?”, apontando pra minha mão o parrudo. Não perdi a carona, expliquei o troço. “Ó paí ó, o sujeito é CDF”. “Me dá um desse”, pediu o magrelo. “Venha com o meu”, exigiu o parrudo. E solidário, soltou: “Nos carros dos clientes pode, você sabe, né? Só daqui que é barril”. “Beleza. Foi mal mesmo. Eu não sabia”.
Dei a volta e ataquei nos carros dos funcionários da outra ponta, que eles não enxergavam.

Cidade Baixa, uma hora mais tarde. Terceiro andar do Instituto do Cacau (?). Minha mãe e eu num balcão, em frente a uma gordinha de óculos, bizarramente vestida de roxo.
“Quero dar uma entrada num cargo”, falou minha mãe entregando o envelope com os documentos conseguidos na Secretaria. A mulher apanhou, tirou o que fosse lá de dentro, olhou, deu um formulário de volta e esperou que a professorinha preenchesse todos os espaços. “Ah, mas você trouxe seu comprovante de graduação? Histórico da antiga escola?”. “Não me disseram nada disso”. “Me desculpe, precisa”. Suspiro. “Volte amanhã”. Outro suspiro, enquanto a gordinha se levantava e saía.
Minha mãe me olhou e “Saulo, assalte essa mulher”. Claro. Peguei um, me inclinei pra dentro do balcão e enfiei entre a papelada.

Rua da Cidade Baixa. Uma fileira gostosíssima de carros. Posso soar fetichista, mas é uma visão que realmente passou a me agradar. Minha mãe esperou dentro do gol vermelho enquanto eu executava a carreirinha, de uma esquina à outra. Muita gente em pontos de ônibus do outro lado, transe no trânsito e isso me doava adrenalina, a sensação brasileira de estar se metendo numa idiotice. E comecei um mantra interno de que precisava calejar, precisava calejar, até um sujeito de terno e gravata aparecer no exato momento de ataque ao seu carro. Pulei, suando frio, me dediquei a outro pára-brisa. Mas por que esse temor? O que racionalmente as pessoas devem ter contra a ação, contra o ir à rua com o fim nela mesma? Sorte que o sujeito ficou enrolando, colocando maleta em porta-malas, mexendo nos óculos, sei não, pra eu ter tempo de me refazer. Reaproximei e “Toma. Já ia pôr no seu carro. É literatura”. Ele respondeu um “obrigado” tão sério que relaxei.
Voltei pro gol. Mal sentando, minha mãe veio: “Ah, sim! Pensei que não fosse entregar pro cara de terno!”
E Orquestra Imperial.

2 comentários:

Unknown disse...

Bati um receio da porra,mesmo.Principalmente nos carros,medo de trincar o vidro pára-brisa de alguém de tanto nervosismo.Mas é bala aSSAltar.No bom sentido,lógico.

Leonardo Pastor disse...

Belo assalto literário!

Obs.: É agora praticante do neologismo? "Maravilindo"
Adorei =)